Conversa 01
O que cada um está colocando
A maior parte das brigas de sociedade começa aqui, porque cada um lembra do que colocou e esquece do que o outro colocou.
1. Quanto em dinheiro cada um vai colocar, e até quando?
Valor e data. Se for em parcelas, escrevam as parcelas.
2. Quantas horas por semana cada um vai dedicar de verdade?
Não a intenção. A realidade de quem tem outro emprego, filho pequeno ou outro negócio.
3. O que cada um traz que não é dinheiro nem hora?
Carteira de clientes, código já escrito, marca, reputação, equipamento, contrato em andamento.
4. O que veio de fora passa a ser da empresa ou continua sendo da pessoa?
Vale para tecnologia, nome, base de clientes e qualquer coisa que existia antes da sociedade.
5. A divisão da sociedade reflete tudo o que vocês responderam acima?
Se for meio a meio, escrevam por que é meio a meio.
O que quase ninguém percebe
Meio a meio parece a divisão mais justa e é a que mais trava empresa. Em qualquer impasse, cinquenta contra cinquenta é empate, e empate congela decisão. Se vocês querem manter a divisão igual, combinem desde já como se desempata.
Conversa 02
Quem decide o quê
No começo tudo é decidido junto porque tudo é pequeno. O problema aparece quando as decisões crescem e ninguém combinou quem tem a caneta.
6. Quais decisões cada um pode tomar sozinho, sem consultar o outro?
Sejam concretos: contratar um freelancer, dar desconto, trocar de fornecedor.
7. A partir de qual valor uma despesa precisa da concordância dos dois?
Escrevam um número. "Coisas grandes" não é um número.
8. Quem decide contratar e quem decide demitir?
Inclusive quando a pessoa foi indicada por um dos dois.
9. Quem fala pela empresa para fora?
Cliente, imprensa, investidor, redes sociais. Pode ser dividido por assunto.
10. Quando os dois discordam e nenhum cede, o que acontece?
Alguém tem a palavra final naquela área? Existe um terceiro que vocês dois aceitam? Existe prazo para decidir?
A pergunta que sustenta o bloco
A pergunta 10 é a que quase ninguém responde e é a única que importa no dia da briga. Enquanto a relação está boa, ela parece desnecessária. Quando deixa de estar, já não dá para combinar.
Este bloco costuma ser tranquilo no primeiro ano ruim e explosivo no primeiro ano bom.
11. Quanto cada um retira por mês, e isso é pró-labore ou lucro?
Pró-labore é pelo trabalho. Lucro é pela participação. Misturar os dois é a origem de metade das discussões.
12. Se um trabalha mais horas que o outro, isso muda a retirada? Muda a participação?
São duas perguntas diferentes e as duas precisam de resposta.
13. O lucro que sobra: distribui ou reinveste? Quem decide, e quando isso é revisto?
Combinem também a periodicidade da revisão, porque a resposta muda conforme a empresa cresce.
14. Se a empresa precisar de dinheiro novo e um puder colocar e o outro não, o que acontece?
A participação muda? Vira empréstimo do sócio para a empresa? Com juros?
15. Existe algo que hoje um paga com dinheiro da empresa e o outro não sabe ou não concorda?
Carro, celular, viagem, curso, assinatura. Falem agora.
O que quase ninguém percebe
Distribuir ou reinvestir é a divergência que mais quebra sociedade, e ela não aparece no começo. Ela aparece no primeiro ano em que sobra dinheiro, quando um dos dois precisa do dinheiro na conta pessoal e o outro quer acelerar a empresa. Os dois estão certos, e é por isso que trava.
É o bloco que todo mundo pula por parecer pessimista, e é o único que realmente decide se a empresa sobrevive a um conflito.
16. Se um quiser sair, o outro tem preferência para comprar a parte dele?
E se o outro não quiser ou não puder comprar, quem mais pode entrar?
17. Como se calcula quanto vale a parte de quem sai?
Combinem a fórmula, não o valor. Múltiplo de faturamento, avaliação por terceiro, valor investido corrigido.
18. Em quantas parcelas e em quanto tempo essa parte é paga?
Uma saída à vista pode quebrar a empresa que ficou. Pensem no caixa, não só no valor.
19. E se a saída não for uma escolha?
Doença, morte, divórcio, ou simplesmente parar de entregar o que foi combinado. Cada um desses casos tem uma resposta diferente.
20. Quem sai pode abrir um concorrente? Pode levar cliente?
Por quanto tempo, e em qual mercado.
21. Existe um tempo mínimo antes de alguém poder sair com a parte cheia?
É o que o mercado chama de vesting: a participação vai sendo conquistada ao longo do tempo em vez de existir inteira desde o primeiro dia.
O que quase ninguém percebe
Combinar a fórmula é fácil hoje, quando ninguém sabe quem vai sair. Combinar o valor é impossível depois, quando os dois já sabem quem está saindo e cada um tem um interesse oposto no número. Por isso a pergunta 17 pede fórmula e não valor.
Conversa 05
O que ninguém quer perguntar
Cinco perguntas que não entram em contrato nenhum e que definem se o contrato vai precisar ser usado.
22. O que o outro faz hoje que te incomoda e você nunca falou?
Um de cada vez, sem interromper. Depois troquem.
23. O que te faria querer sair desta sociedade?
Escrever isso hoje é a melhor forma de evitar que aconteça.
24. Se em três anos a empresa não tiver dado certo, o que cada um faz?
Fecha, vende, um compra do outro, ou continua tocando pequeno?
25. Se aparecer alguém querendo comprar a empresa, vocês vendem?
Cada um escreve o valor pelo qual venderia. Comparem os dois números.
26. Vocês confiam um no outro para assinar algo em nome dos dois?
Se a resposta demorar, ela já é a resposta.
O fim do roteiro
Se vocês conseguiram responder este bloco em voz alta, olhando um para o outro, o resto do acordo é técnica. Se não conseguiram, nenhum contrato do mundo vai resolver o que ficou por dizer.
Nada fica salvo nesta página. Ao sair ou atualizar, as respostas se perdem, então baixe o PDF antes de fechar.